27/09/2019

as sombras da floresta


(histórias com raiz e com alma)
(inspiradas em casos clínicos)


'Second to the right', said Peter , 'and then straight on til morning.'
J.M. Barrie, Peter Pan



O Pedro cresceu. Tem agora 21 anos. Hoje ninguém o conhece como Peter Pan. Com o nome perdeu também a bússola. Sentia-se mais perdido do que nunca. Pois, a Terra do Nunca tinha ficado muito para trás, longínqua e distante. Vaga memória. O Pedro estava perdido. Numa floresta. Sombria. O único mapa que tinha consigo tinha-lhe sido dado pelo pai fazia já muito tempo. Experimentava usá-lo. Mas cada caminho que o mapa lhe indicava e cada recanto que encontrava, escondido, estava coberto, não só de musgo, mas também de sombras. Percebia agora que o mapa fora desenhado para encontrar, unicamente, sombras. Sombras de si, sombras da floresta. Sombras que lhe diziam sempre a mesma coisa: “És uma desilusão”. E de cada vez que o eco das sombras ressoava, o Pedro sentia-se, mais e mais, perdido. Mais perdido, mais inútil e mais incapaz. As sombras invadiam-lhe o coração. O amor que alguma vez tinha sentido por si ia-se desvanecendo. Na penumbra da floresta.

Foi por uma vez que se atreveu a seguir um caminho diferente daquele que o mapa das sombras lhe indicava. O seu coração tinha falado mais alto. E no início do caminho avistou um pirilampo. E o pirilampo, pontinho brilhante e alado, disse-lhe: “Gosto tanto de ti tal como és.” E o Pedro sentiu as suas pernas a ficarem menos dormentes e as suas costas a ficarem mais direitas. E viu a penumbra a dissipar-se. E andou um bocadinho mais e foi confiando mais nos seus pés. E no seu coração. Mais um pirilampo que apareceu e disse: “Confio nas tuas escolhas.” E o Pedro escutou o eco da sua própria voz e o canto dos pássaros. E outro pirilampo: “Tu és capaz.” E outro pirilampo ainda: “Não faz mal ter medo.” E o Pedro sentiu a luz do seu olhar e a determinação dos seus gestos. Foi caminhando. 

Com o tempo foi deixando de olhar para trás. O mapa das sombras, esse, voou para longe, sacudido pela folhagem. O coração do Pedro sacudiu as sombras e ganhou raiz. 


O sentimento de não correspondência às espectativas dos pais (ao bebé idealizado) pode ser castrador para a evolução e para o desenvolvimento saudável do indivíduo. Fortalecer a auto-estima e o autoconceito, acreditar em si, valorizar-se, aceitar-se é claramente um desafio. 


por Ana Sevinate & Isabel Duarte
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