11/10/2019

uma coruja chamada Francisco



(histórias com raiz e com alma)
(inspiradas em casos clínicos)



"Durante os dias, semanas e meses seguintes, os animais recordaram inúmeras 
histórias sobre a Raposa.
Os seus pesados corações começaram a ficar mais leves.
Quanto mais a recordavam, mais a árvore crescia, cada vez mais alta e cada vez mais bonita, 
até se  tornar na mais alta da floresta. 
Uma árvore feita de recordações e cheia de amor."
Britta Teckentrup, A Árvore das Recordações


O inverno tinha chegado. Tinha vindo para ficar. Acompanhado pelas brumas com as quais o passado se adorna e pelos tons que o cinzento gosta de ter. E tudo gelou. E tudo parou. E tudo se perpetuou no tempo. Maria tem 75 anos. A expressão delicada e emaranhada de um floco de neve. O cabelo vestido de branco, bordado com o fio de prata que um dia a lua emprestou. A companhia de uma coruja. Branca e sensata. Guardiã de memórias e de histórias por contar. O inverno tinha vindo para ficar e as gotinhas salgadas que tinham insistido em percorrer o rosto de Maria, tinham gelado. Parado, tinham se perpetuado no tempo. Suspiros suspensos no ar arrefecido da madrugada.

As únicas flores que brotavam eram as mais persistentes. Pequeninas e corajosas iam brotando aqui e ali. E acolá, quando a Maria não via. Quando a Maria fechava os olhos e sonhava com um amanhã diferente. Num amanhã onde o Francisco estivesse. Num amanhã onde o Francisco continuasse a dar-lhe a mão sempre que se sentisse perdida. Pois sem o Francisco não existia Norte. O Norte que era Estrela Polar. Direção. Pois só existia o Norte que era Pólo. Distante, frio e esquecido. 

Maria queria que o ontem congelasse, para que não tivesse que deixar de ser. E queria que o amanhã se reinventasse, para poder ser o que o presente não é. Presente dorido e eterno. Mas existia também a vontade da coruja. Vontade amorosa e sapiente. Feminina e masculina. Alvar, como a de um pilriteiro. Dual e una como a vida de um casal e como o par de uma vida. E por isso sabia. Sabia que o inverno tem sempre um fim. Sabia que as flores pequeninas que cresciam aqui, ali e acolá eram sementes de um amanhã dotado de novo sentido. Sabia que o coração conhece segredos e significados que só ele conhece. E por isso sabia que no fim do inverno o Francisco seria a presença constante e guardiã da Maria. Que nunca tinha partido afinal, a coruja. Histórias recontadas. 


A perda de uma pessoa que se ama, um companheiro que foi também o pilar da uma vida, pode deixar feridas que levarão o seu tempo a cicatrizar. É necessário então dar-nos tempo (o nosso tempo) para que esta dor se possa apaziguar e encontrar o seu caminho. Este é o caminho, o nosso caminho.


por Ana Sevinate & Isabel Duarte


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