21/05/2020

as senhoras com capuzes de cor púrpura

(quando te vejo a Ti Natureza, vejo a nossa)
(sobre a ancestralidade)

"Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura."

(in "Manhã Futura" de Sophia de Mello Breyner Andreson)



As “campainhas” guardam segredos em cachos de cor púrpura. Sussurram umas às outras linhas de memórias e matizes de cura que a geração anterior foi pintando a óleo. 

Mas se nos formos aproximando devagarinho e com gentileza, podemos ouvir os segredos que passam delicadamente de mão em mão. Com luvas de raposa. 

Estendem-se em altura, em direção à eternidade do céu e à profundidade do solo, como uma árvore genealógica viva, vibrante e solene. Capuzes de feiticeiras. Toucas de sacerdotisas. 
E em cada círculo que se cria, uma idade. Em cada varanda que se expande, uma transmissão. Quando fechadas puderam escutá-la. E guardá-la na pele tecida a papel de seda. E na sombra do carvalho e na humidade do bosque, abrem-se devagarinho. Quando abertas souberam cantá-la. Erguem-se as suas vozes. São senhoras de si agora. São senhoras do coração agora.

E em cada uma, a promessa do mel e o sigilo da Terra. E em cada uma, o pontilhado do Universo e o legado do mistério. 

E vão subindo, as mais meninas. Porque os mistérios já vêm de longe, enaltecidos, fortalecidos. Antes de poderem ser ouvidas. E assim vão caindo, as mais senhoras. Sábias na sua queda. Antes de levarem consigo, de novo e por fim, os segredos e a alma do mundo. 

E se nos formos aproximando devagarinho e com reverência, deixamos que se revelem. E entendemos então que assim também somos nós. Na pele da alma e no coração dos gestos, ecoamos aquilo que a nossa linhagem desenhou. Dores, nódoas negras e roxas? Também. Mas não esqueçamos, nunca e jamais, os remédios e os sonhos que edificam e nutrem possibilidades. Púrpura.

E se formos levando connosco o que nos toca, o que nos amachuca e o que nos transmuta para este encontro, os remédios revelam-se. E os sonhos libertam-se.

E se formos levando connosco os mistérios que nos vestem, a nós meninas e às senhoras antes de nós, abrimo-nos à voz e à alquimia do tempo. Temos capuzes pois. Temos toucas. Com cetins e remendos. Com fitas bordadas e costuras emendadas. Assim somos nós.

E se formos levando connosco as meninas pela mão e sussurrando flores e ventos, somos senhoras do tempo e mestras da voz. Temos estrelas pois. As do Universo e as que convidam as abelhas. Com brilhos e cicatrizes. Com dons e unguentos. Assim somos nós.

Devagarinho. Em silêncio. Escutemos. Tlim-tlim. As flores mães e as flores avós. Que dignificam a Terra. Que somos também nós. 

Devagarinho. Em ovação. Falemos. Tlim-tlim. Por elas e na nossa própria voz. Que transforma o mundo. 

E quando dermos por isso, e quando olharmos devagarinho para cima, podemos ver as meninas que nos ouvem com atenção. Tlim-tlim. 

Que somos também nós.



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