22/05/2017

era uma vez


(sentires)

“Mãe, para este Natal quero uma história com um caracol.”


Ouvimos histórias, contamos histórias e tecemos histórias em conjunto. Desde o princípio dos tempos e desde o principio do tempo de cada um de nós. Escrevemo-las em cada passo que damos. Pela vida fora. É aquilo que nos ajuda a dar sentido e é aquilo que nos dá sentido de continuidade. Para não nos desmembrarmos. Para sermos um todo. Contraditório e mutável, mas um todo. Da mesma forma, a mitologia ajuda-nos a dar sentido ao universo e à existência. Porque a mitologia possui a qualidade e a magia de carregar consigo, em simultâneo, a genialidade e a ferida. Possui a qualidade e a magia de conter, em si mesma, os ingredientes que tornam possível cicatrizar. Narrando o drama das nossas vidas, mas também as emanações profundas da terra (Shaw). 

As histórias que ouvimos, desde o principio de nós, são alimento. São alimento em forma de símbolos e de sonhos. Alimento tão fundamental à nossa capacidade simbólica, à nossa, imaginação, à nossa identidade e à nossa psique. As histórias são os fios que tecem os nossos sonhos. Fios fininhos, praticamente invisíveis e, igualmente, resistentes, feitos de prata. Como uma teia de aranha, que nasce da capacidade de criar, de suster e de (nos) agarrar. Fios que possuem poder emocional, ligando corpo e psique, aliando significado, esperança e visão (Shinoda Bolen).

O lado sombra da imaginação é a sua capacidade de nos prender. Porque algures no tempo não foi possível nem suster nem agarrar. Então ficamos presos e prisioneiros de histórias que a vida nos foi contanto e que nos vamos (re)contando. Vezes sem conta. Infinitas vezes. Até se alojarem nos nossos cromossomas. Para sairmos delas, contamo-nos outras, alternativas, repletas de maravilhas. Nestas histórias criamos versões “melhores” de nós, afastando-nos da possibilidade de atingirmos quem somos. Porque nos desiludimos, cada vez mais, acreditando, cada vez mais, nas histórias que a vida nos contou. Saltamos entre histórias e mundos paralelos, sem ponte nem paraquedas.

Como contruir pontes e fios que nos sustêm e nos deixam movermo-nos livremente sem prender nem ficar presos? Contando histórias. Vezes sem conta também. As vezes que forem necessárias. Histórias diferentes. Uma mitologia de nós mesmos e do coração humano cuja linha, possa, ponto a ponto, tecer, bordar, em simultâneo, as nossas dores e a nossa capacidade de nos deslumbrarmos. Escutando e religando-nos à linguagem que nos liga. A narrativa é o fim e é o meio. De cicatrização e de alquimia. Contando histórias, na relação e em relação, pois escutar implica encontro. Que começa por ser connosco e em nós. Histórias que deem licença para a vulnerabilidade entrar. Assim como ao sonho. E que os dois possam ser a malha de um mesmo fio, de uma  mesma linha. Dançando possibilidades muito para além daquelas que a vida nos apresentou e que aprendemos a procurar incessantemente com uma lupa. Reconfigurando o nosso ADN.

Estaremos, porém, dispostos a contar uma história de nós mesmos diferente daquela que conhecemos? E estaremos dispostos a escutar uma história do outro diferente daquela que conhecemos? Pois se a história muda os personagens podem também ter que mudar e estaremos, por isso, dispostos a deixar partir ou transformar lados de nós, ou dos outros, que já não fazem sentido? Estaremos dispostos a perder uma história que ainda que nos traga dor é também tão familiar? Será fácil ou, até mesmo, possível, conhecermo-nos de novo, com a mesma curiosidade de quando vemos algo pela primeira vez? Pode a curiosidade apaziguar a desilusão?

Precisamos das histórias que são de todos nós. Resgatando-as num movimento orgânico de cura. Precisamos de as recontar “em roda”. As histórias dos outros tempos vivem e acontecem agora. As histórias do mundo e as histórias da nossa gente. Ouvimo-las agora e por isso é preciso escutá-las agora. No canto dos pássaros e no cheiro da madrugada. Deixando-nos falar. Deixando a terra falar. Deixando as ideias seguirem soltas. Seguir-lhes o rasto, para além das nossas cabeças, sem as armadilhar (Shaw). As ideias que seguem num raio de sol e as ideias que seguem no correr de uma lebre. E quando se contam essas histórias, as memórias não são as da pele, nem as da carne, mas as dos ossos. Contando-as em voz alta, porque é na oralidade desarrumada e improvisada que nos encontramos e que descobrimos novas linguagens. Porque em situação de crise, a resposta está na borda, na beira do mundo (Shaw).

Precisamos das histórias de nós, pois o passado de cada um de nós vive e acontece agora. E se recontarmos a nossa história escutando, a nossa história passa a ser futuro. Porque “se nos identificarmos com a história, ela incorpora-se em nós, provocando reações em todas as células e moléculas do nosso corpo.” (Shinoda Bolen). Porque em situação de crise, a resposta está na borda, na beira de mim e de ti. Aquele espaço em que o eu e outro se encontram. A nossa história passa a ser sonho. Sonho que não só é alcançável, como já existe. Aqui e agora. Sonho que é também realidade, metáfora que também é literalidade, porque existem pontes e fios que nos ligam, que tornam possível habitar mundos diferentes sem nos perdermos, desiludirmos ou desmembramos. Tornando-os num único mundo, mas regressando sempre. A nós, ao chão e à terra. É um sonho em voz alta.

Livros recomendados: “Até ao mais infinito do ser” de Jean Shinoda Bolen, Planeta Editora; “Scatterlings” de Martin Shaw


por Ana Sevinate









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