29/05/2017

pela toca do coelho (capítulo I)


(sentires)

“Já não havia prímulas. Perto da orla do bosque, onde o terreno se tornava aberto e descia até uma velha cerca e uma vala de silvas maia à frente, apenas uns quantos tufos amarelados e pálidos ainda assomavam aqui e ali por entre as mercuriais e as raízes dos carvalhos. Do outro lado da cerca, a parte superior do campo estava cheia de tocas de coelho. “
(Richard Adams)

À Alice que habita em cada um de nós.


Existem pequenos instantes que marcam passagens. Iniciações. Primeiro existe aquele segundo, ou dois, em que nos sentimos à beira. À beira do depois. Aquele espacinho exatamente entre o antes e o depois. Sabemos, no corpo, que a partir daí não se regressará ao antes. Perde-se aquilo que é e aquilo que é passa a ser aquilo que foi. O coração bate em corrida, aos pulos. Segue-nos o medo e empurra-nos a curiosidade. Acompanham-nos os dois, desde sempre. De mão dada. Algo, em nós, tenta impedir que nos movamos, nem sequer um dedo, um fio de cabelo. Outra coisa qualquer, em nós, faz-nos avançar sem pestanejar. Depois há um lapso de tempo, do qual não nos damos conta. Sem nos apercebemos, atiramo-nos no ar. Um pulo. Para um espaço amplo, entre reinos, entre universos. Como um céu profundamente estrelado. Entrámos pela toca do coelho. Precipitamo-nos em queda.

Ao longo do caminho, de vida e de descoberta, existem como que portais ou portagens que imprimem viragens. Imprimem ciclos, estações. Em cada um destes portais ou em cada uma destas portagens deixamos malas, coisas, tralha. Pode tomar a forma de ritual, mas pode também não ser assim. Pode tomar a forma de uma perda, de uma viagem, de um insight ou de um abraço. Uma espécie de alfândega. Seguimos caminho mais leves. Saltamos mais alto. Um salto. Em jeito de mergulho. Abandonamo-nos perante a ausência de controlo e se, por acaso, tentamos controlar, torna-se tudo mais difícil. Quando a mente tenta freneticamente controlar. Ficamos presos entre mundos. Já não conseguimos voltar para trás. O caminho para a frente é desconhecido e é, numa dimensão aparente, solitário. Ficamos presos. Na dor, ficamos divididos ao meio. À luta conosco mesmos. Entre a morte e a vida.

Precisamente, é quando sentimos que nos faltou um colo que se torna mais difícil deixarmo-nos abandonar. E como não nos permitimos abandonar, temos que nos suster com cordéis. Seguramo-nos, mas não nos contemos. Não há colo. Foi no abandono que aprendemos a suster-nos. E não será, precisamente, na possibilidade de abandono que sentimos o chão, o fundo da toca, o colo? Da terra? Não é, precisamente, na possibilidade dessa comunhão e dessa conexão que podemos resgatar a relação com a nossa própria natureza? E a relação com a Natureza que nos acolhe e que nos embala? Abandonemo-nos então, deixando que a gravidade nos leve e nos puxe. Aos saltos. Numa mistura de fé e de inevitabilidade. Não será essencialmente um salto de fé? Em nós. Na nossa própria capacidade de nos darmos colo e, tão simultaneamente, na consciencialização de que o colo não é estanque, de que a psique não se abandona sozinha, mas em ligação.

Saltámos. Pela toca do coelho. Sentimos agora a terra e sentimo-nos atordoados. Há uma estranheza na forma como os nossos olhos vislumbram o que está à nossa volta. Não foi o mundo que mudou, são os nossos olhos que trazem consigo um novo olhar e um novo brilho. No entanto, a sensação é a de que aterrámos em parte incerta. É a estranheza da ligação que Alice sente. A falta de sentido que fala a linguagem simbólica dos sonhos e da imaginação. Nada parece bater certo e, na realidade e na estranheza, tudo se encaixa. É a estranheza da fluidez e do resgate de uma forma de relação antiga e primordial. Uma relação com a nossa própria natureza e com a Natureza, em que nem nós nem nada que vive e pulsa em nosso redor é objeto, mas sim sujeito. É não estarmos separados, mas sim embebidos nela. É um caminho que só é solitário numa dimensão aparente, pois é quando nos tornamos sensíveis a tudo e a todos, que conseguimos sentir em conjunto.

Em tudo existe vida e morte também. Em tudo existe consciência e a consciência é uma qualidade lúcida da biosfera (Abram). Existe reciprocidade. A psique vira-se de dentro para fora e é parte integrante da rede que a natureza costura. Sentimos. Como um coelho atento, escutamos a doçura das flores, somos tocados pelo som dos pardais, cheiramos a sensualidade das cores, saboreamos o crepúsculo e cheiramos o vento. Sentimos. Sentimos orelhas, bigodes, almofadas das patas, músculos ativos. Sentimos a ligação entre o corpo humano e a Terra que respira (Abram). Terra, que tal como o coelho, é mãe de muitos filhos. Renascemos religados e redescobrimos a inteligência selvagem que o nosso corpo traz consigo (Abram). A terra permite então a viagem pela toca, ao mesmo tempo que a permite integrar. Pois dela nasce, morre e renasce tudo. Traz ao colo sonhos e raízes. Nutre e transforma. Leva-nos e traz-nos de volta. Contando-nos uma história de esperança e de possibilidade. Contando-nos que é possível fazê-lo também na relação entre o eu e o outro. A possibilidade de nos perdermos e trazermo-nos de volta. Misturando sonhos e mantendo raízes.

Falamos então de “eco-cura” ou de “eco-regeneração”, em que o inconsciente é um inconsciente ecológico e em que o sofrimento humano deve ser visto e compreendido à luz do nosso ecossistema. Não será então que o estado da mente e o mal-estar psicológico se referem também ao estado de confinamento físico que vivemos? (Hillman in Rozsak). Confinamento a um prédio, a um metro, a uma estrada, a quatro paredes, a muros. Confinando os pulos e os saltos da imaginação. Dando os sonhos lugar à ansiedade e à depressão. Já não podemos ser curiosos, irrequietos. Como um coelho. A imaginação já não pode ser veloz nem selvagem. Como um coelho. E é assim que engolimos as dores do mundo. E é assim que perdemos o poder de as transformar.

Demos então um pulo. Um avanço que é também um avanço do mundo e que acontece sempre que o ser humano sonha. Que é também o salto do coelho. E o do coelho, o nosso. Porque o ser humano e o mundo não existem enquanto expectadores um do outro. Pelo contrário, dançam em abraço fechado, sendo que o passo de um, antecipa o passo seguinte do outro. Fiquemos então na toca. Com o sonho, com o sem sentido. No colo, no aconchego e no alivio de não nos termos que suster com cordéis.  Os cordéis são agora fios fininhos que existem dentro de nós e que criam novos trilhos. Redescobrimos quem somos quando nos perdemos. Renascemos religados. Numa Primavera fértil de ideias. Sussurramo-nos ao ouvido que “não adianta regressar ao ontem, porque eu era uma pessoa diferente nessa altura. “ (Lewis Carroll)

(continua)


Livros recomendados: “Era uma vez em Watership Down” de Richard Adams; "Alice no País das Maravilhas" de Lewis Carroll; “Becoming animal: an earthly cosmology” de David Abram; “Ecopsychology: restoring the Earth and the mind” editado por Theodore Roszak.



por Ana Sevinate

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