01/06/2017

a sardanisca e a sua viagem ao centro da Terra


(palavras) (elemento fogo)

Era uma vez uma sardanisca que insistia em morder o rabo. Tal como a sua prima pescadinha, vivia com o rabo na boca. A única diferença é que a pescadinha vivia entre oceanos, recifes e peixes transparentes. Já a sardanisca vivia entre desertos, escarpas e cactos. Como mordia o rabo, não saía do mesmo sítio. Queria apanhar-se, agarrar-se, encontrar-se consigo mesma para tomarem o chá da cinco e para porem as conversas em dia. Por isso corria em círculo, desenhava circunferências. Era uma argola em permanente movimento. Tanto tanto tanto, que um dia escavou um buraco no chão. Por insistir em morder o rabo e não sair do mesmo sítio. Andava em looping e em hula-hop, sem qualquer tempo nem espaço entre a ponta e o extremo de si. Também por isso, a sua pele agarrava-se a si com unhas e dentes, nauseada e sem querer cair.

Escavou, escavou e escavou. Tanto tanto tanto, que chegou ao centro da Terra. Só se apercebeu que tinha lá chegado quando já não podia descer mais. Não se deu conta do caminho ainda que tenha levado uma eternidade. De tão distraída e determinada que estava. Já não era possível escavar mais. O fundo morava ali. O fim também. Nem cruzamentos, nem bifurcações, nem atalhos, nem corta-mato. Perante tamanha estupefação, largou finalmente o rabo que tinha insistido tanto em morder. Agora queria esticar-se para poder perceber onde estava. A sua expressão dizia “ups”. Dizia “então e agora?”. Sem grande agitação, sem grande espanto. Um “ups” enfadonho e anémico.

Tentava esticar-se. Sem sucesso. A forma do buraco que tinha escavado era circular. Não tinha espaço para se pôr ao comprido e espreguiçar-se. Apercebeu-se que lhe doía tudo, dos pés à cabeça. Por andar sempre em forma de donut, de bracelete e de roda dentada. Apercebeu-se que a sua pele estava tão espessa que atordoava cada passo que dava. Por não a ter mudado. Sentiu muito calor. Calor que parecia vir das paredes redondas. Um imenso calor. Pensou que afinal o deserto era fresquinho. Sentiu que ia cozer e, para cumulo da sua tamanha desgraça, não via um palmo à frente do nariz. Por entre tamanhos dramas existenciais, o de derreter e o de não conseguir ver, ficou quieta. Tinha transpirado a apatia e o que sentia agora era falta de ar e sufoco. O calor das paredes transformou-se então em labareda.

A sua pele de sardanisca era agora tão quente que ameaçou desprender-se e cair. Fechou os olhos, sentiu que não havia saída, que ia adormecer por muito tempo, para sempre talvez. Ficou quieta. Tudo dentro de si abrandou, ficou suspenso, a pairar. Dois segundos espreguiçaram-se preguiçosamente, demoradamente por duas eternidades. Viu-se. Ouviu a sua história. Desde o inicio dos tempos. Viu o momento no qual tinha decidido morder o rabo. Lá muito atrás, há muito tempo. Quando acreditou que não era capaz de mais nada a não ser morder o rabo. Quando acreditou que o caminho certo era não sair do mesmo lugar. Quando acreditou que mais à frente o deserto era ainda mais vazio.  

Escutou o silêncio que tilintava do seu interior. Escutou o crepitar das chamas. Não se fez de morta, mas desprendeu-se da pele e deixou-se ir. Cerrou mais os olhos. Escutou o centro da Terra. Em forma de esfera incendiada por um sonho. Escutou o seu perpétuo movimento. Um som profundo, forte. Ao mesmo tempo, aconchegante. Deixou-se embalar. No calor. Adormeceu. Mais uma eternidade que demorou um segundo. Acordou. Abriu os olhos demoradamente. A meio palmo do nariz viu uma caixa. Na parte de fora da caixa feita de raiz de sobreiro estava escrito “acende-me”. Na parte de dentro da caixa estavam fósforos.

Demoradamente e sem pressa, retirou um fósforo. Esticou uma das patas da frente e acendeu-o na labareda que a rodeava, que a aquecia, que lhe tinha transformado o tecido com que era feita a sua pele, mas que não a tinha queimado. Acendeu-se uma pequena chama em tons fortes de azul, cor-de-laranja, cor de framboesa. Da pequena chama saiu uma aurora boreal. Plasma verde elétrico, purpura, violeta, holofotes e desenhos de luz. Guardou a caixa na bolsinha que a sua nova pele tinha construído.

Tudo se iluminou e a sardanisca conseguiu ver. Abriu-se um caminho. Na direção que sabia ser a do pôr-do-sol. Outra caixa. Feita de pó de estrela cadente. Lá dentro estavam palavras que ecoaram em geometria de caleidoscópio: “guardadora de sonhos”. Não percebeu nada mas tinha compreendido tudo. Na sua nova pele. Guardou a caixa na bolsinha que a sua nova pele construiu. No horizonte do caminho parou e deixou-se sentir. Sentiu o tremer do interior da Terra e do interior de si. O tremer aumentou. Fê-la chocalhar, rodopiar, fazer flic-flacs e mortais encarpardos. Sentia borboletas na barriga e cocegas no peito. E de repente uma torrente, uma coluna de magma, emergiu do centro da Terra. Por debaixo das suas patas.

Elevou-a até à superfície da Terra e acima dela. E da cratera de um vulcão a sardanisca, surfou, hábil e confiantemente, a lava que dele explodiu. Assumia agora a sua linha reta e o seu tronco esticado. Sentia que no centro de si havia uma fogueira. Meteu-se ao caminho. De óculos escuros em estilo de aviador. Na direção oposta à do crepúsculo. Ao inicio de cada noite aproximava-se da cabeceira de alguém que dormia e abria a sua caixa feita de pó de estrela cadente. Guardava então o sonho desse alguém enquanto dormia. Para que esse alguém não o perdesse. Não esquecesse. Para que esse alguém pudesse mudar de pele. Durante a noite, os sonhos, o seu e o desse alguém, reuniam-se ao redor da fogueira e contavam histórias antigas. Cantavam poemas e bebiam cacau quente com gengibre. Ao fim da noite, antes de continuar caminho até ao próximo sonho, deixava um fósforo. Para que esse alguém o pudesse acender e ver a aurora boreal.




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