19/06/2017

as linhas com que nos costuramos



(sentires) 


“Após ter dado continuação à desarrumação, sem conseguir pronunciar, 
ainda que mentalmente, uma única palavra, concluíu: “Ela existe.”

A Rainha das Rosas
Tailoring Stories by Storytailors


O que nos liga? Fitas, laços, botões, colchetes? Palavras, sensações, emoções, pensamentos? Ou isso tudo e para além disso tudo? Costuras invisíveis. Interiores. Inconscientes. Para além da nossa compreensão, mas não para além do sentido. E há momentos, lá atrás, em que nos desligámos. De nós. Corta-se a linha, desata-se o laço, cai o botão. Perde-se o molde. Porque disse-nos o mundo que tinha que ser. Para encaixar no modelo, para o fato servir. Para nos ajustarmos ao corte pré-definido. Para ficar impecável nos ombros. Para a cintura parecer na perfeição. Manequins de roupa que não nos serve.

Criam-se, nos primeiros tempos das nossas vidas, traçados neuronais (Gerhardt), linhas, nós e remates que nos vão vestir daí por diante. E criam-se também traçados herdados, tecidos de geração em geração. Em tear. Como uma manta de retalhos. Vão-se desgastando, ao mesmo tempo que vão apertando. Coçados do tempo, vão ficando fininhos, insistimos em usá-los. Mesmo com três tamanhos acima ou com dois tamanhos abaixo. E com cheiro a naftalina. E tal como o corpo se adapta ao corpete, a psique adapta-se ao espartilho. Criando formas que não são as suas. Esquecemos quais são as nossas medidas. E o que nos enche a medida. Desligamos. De nós. Dos outros. Da terra. Botão de punho. Galões e assertoados. Nó de gravata. Sustem-se o ar. Prende-se o corpo. Prende-se a maneiras e a bons costumes.

É na relação que aprendemos a prender-nos e é na relação que se descose a bainha. Perde-se o alinhavo. Prendemo-nos e perdemo-nos. Perdemos bocados de tecido de nós. E é também na relação e em relação que se pode voltar a cerzir. E a bordar. Bordam-se desenhos novos. A dois. Ponto em cruz. O ponto de um cruza-se com o ponto do outro. É a falha que nos descose. É o amor que nos religa. É o afeto o substrato primeiro e primordial (Gerhardt). É quando nos desprendemos que nos costuramos. É quando nos libertamos que nos encontramos. Através do outro. É quando batemos asas que regressamos a casa.

Para isso é preciso parar de coser à máquina. Porque se não pararmos o pedal, a agulha, continuamos a costurar no mesmo sentido. Continuamos a procurar a falha. Continuamos a descoser. É preciso, então, que a relação se faça à medida dos dois. Nas medidas dos dois. Dando o que não se recebeu. Recebendo o que o outro não teve. Abrimos. Criamos novos traçados a giz. Tornamo-nos alfaiates de nós. Um no outro. Abre-se para voltar a religar, a coser, a bordar. A fio de ouro. A fita de cetim. Pois é deixando voar o que tentámos proteger da falha, da dor da falha, que podemos desfazer a malha de desafeto. Mas dói. Dói abrir. Armaduras e malhas de aço, antigas, têm que cair. Fica-se exposto, vulnerável e em carne viva. Assolam os medos. Para ficarem à flor da pele, para serem sacudidos. Transmutados. Para que caiam, é precisa essa relação à medida. Para que mude o traçado, para que mude a história. Para que se abra a vitrine e se soltem as asas.

Viemos ao mundo de braços abertos. Aprendemos a fechá-los. Fecha-se o roupeiro. Esconde-se a chave. Insistimos em tentar abraçar de braços cruzados. Porque dói. E depois existe, também aqueles momentos. Aqueles momentos em que sentimos. Em que sentimos que dói mais andar de braços cruzados. Do que de abraços abertos. Desfazendo câimbras e tendinites. Para nos podermos abraçar. Abraçar o que foi desligado, o que foi descosido, o que foi rasgado. Só é possível se abrirmos os dois os braços. Descobrindo chaves. Deixando cair linhas laças e fios desgastados. Para que se bordem outros. Ponto de cruz. Vão caindo máscaras. Mas será que basta uma única prova? Ou será antes uma caminhada de abraços, cada vez mais à nossa medida, cada vez mais à medida um do outro que nos vai preparando para abraçar quem somos? Bordado de uma vida, ao qual se juntam cores e debruados. Na incerteza, sem repostas (Hillman). Na incerteza do próximo ponto. Na certeza de que aprendemos a vestir-nos. À nossa medida.

Roupa que se ajusta a nós, que segue as nossas formas. A nossa essência. Que nos deixa respirar. Que nos deixa voar. A inocência é acolhida de novo, em nós. Abrem-se as asas no decote das costas. De fadas, de anjos, de pombas. Porque resgatamos peças soltas de nós e fizemo-las crescer ao nosso tamanho. Porque só assim sabemos que podemos levantar voo e abrir os braços. Sem cair. Passamos a saber pousar. Os percursos neuronais refizeram-se, recoseram-se através do olhar do outro. Mudam-se respostas e circuitos hormonais, altera-se o sistema imunitário (Gerhardt). Despem-se hábitos nocivos e hábitos que nos escondem. Olhos que refletem as nossas medidas. Por inteiro. Linhas invisíveis que nos levam ao encontro de nós. Até casa. Até às estrelas.

Roupa agora solta, fluida, que nos deixa sentir, correr, brincar. Feita para nós e na medida do que que nos serve em cada instante. Do que o corpo pede e do que a natureza e a terra indicam. Mais fresca ou que agasalhe mais. Linho amarrotado ou flanela fofa. Lenços ou cachecóis. Chapéus de palha ou gorros de lã. Descalços ou com calçado quente. Sempre em ligação. Por vezes florimos e por vezes caem-nos as folhas. Deixando-nos tocar. Tocando. Sentindo a textura e a temperatura do tecido. Da nossa pele. E é através deste tocar de pele, toque empático e profundo, que podemos tocar o mundo. É recozendo o que nos une que podemos despir a Terra da roupa sintética que veste o desencontro e o desligamento. A mesma terra que nos liga e que nos religa. Bordando a várias mãos.


Livros recomendados: “Why love matters” de Sue Gerhardt; “Re-visioning psychology” de James Hillman.  




por Ana Sevinate
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