15/06/2017

o espaço que achava que era apertado e o tempo que sentia que era demais


(palavras)

“Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.”

Ricardo Reis


Era uma vez um espaço. E era uma vez um tempo. O espaço era feito de paredes, portas e janelas. O tempo era feito de estrelas cadentes, do escuro da noite e de caudas de cometas. Viviam em terras muito distintas e muito distantes. Mas às vezes encontravam-se. A bordo de um navio transatlântico ou à esquina de uma galáxia. Falavam das últimas noticias do Universo e jogavam à batalha naval. De vez em quando expiravam um suspiro profundo. Nenhum deles perguntava porquê. Simplesmente entendiam o suspiro. Um do outro. Simplesmente o escutavam, o sentiam e o inspiravam. 

O tempo entendia que o espaço às vezes achava que era apertado. O espaço entendia que o tempo às vezes sentia que era demais. O espaço achava que era apertado quando alguém trancava a porta à chave ou quando alguém não abria as portadas das janelas para deixar a luz entrar. O tempo sentia que era demais quando alguém não sabia o que fazer com a sua vida ou quando alguém demorava muito tempo a chegar. E suspiravam e entendiam. E jogavam mais uma partida de batalha naval: “F4” dizia o espaço, “hidroavião ao fundo” dizia o tempo.

Foi num dia de mau tempo e de tremor de terra que o espaço e o tempo se encontraram ao balcão de um satélite. Entre refrescos e pastelaria, a trovoada caía e a terra tremia. E o espaço e o tempo desabafaram. Cada um deles disse o que os afligia e o outro já sabia. E entendia. E sentia. E foi então que maquinaram os dois um plano. O espaço iria arrancar portas e janelas com a ajuda dos vendavais. O tempo iria colocar todas as pessoas e todas as respostas na mesma sala, sem partidas nem chegadas, nem dúvidas existenciais. Com a ajuda das constelações. E assim foi.

Foi assim que casas, prédios, escolas, fábricas, quintas e lagares se viram sem persianas, caixilharias, vidros, tábuas, maçanetas e fechaduras. E foi assim que voaram segredos, documentos, tabuadas, parafusos, galinhas e caroços de azeitona. Foi assim que toda a gente deixou de tocar à campainha e de correr os cortinados. Foi assim que toda a gente deixou de poder brincar às escondidas e de poder cantar no duche. Foi assim que toda a gente deixou de conseguir limpar o pó e de arrumar as bolachas na despensa.

Foi assim que todos os seres vivos foram postos numa enorme sala do tamanho do mundo. E nessa mesma sala foram colocadas todas as respostas às suas perguntas. Já ninguém esperava por ninguém. E já ninguém tinha incertezas. E foi assim que deixaram de se enviar postais, flores, mensagens e e-mails. Foi assim que deixaram de aterrar aviões e de se dar abraços. Foi assim que as flores passaram a estar sempre em botão, sem poderem desabrochar. Foi assim que toda a gente deixou de sentir curiosidade. Foi assim que ninguém já ouvia o coração a palpitar. Foi assim que as meninas dos olhos deixaram de brilhar.

E foi, então, assim que o espaço e o tempo suspiraram mais profundamente do que nunca. E entenderam melhor do que nunca e melhor do que ninguém. E foi assim que pagaram horas extra aos vendavais e às constelações para os ajudarem. A pôr ordem nas coisas, a pôr as bolachas na despensa, a pôr os postais no correio e a pôr o brilho no olhar. E foi assim que se voltou a ouvir a tabuada e a cheirar o azeite. A ver alguém como se fosse a primeira vez. A tocar a esperança de um futuro incerto. A provar a doçura de uma surpresa ao entardecer.  

E foi também assim que o espaço e o tempo passaram a pregar partidas. Às vezes abriam uma fresta da janela e uma borboleta entrava. Às vezes escondiam a chave da porta para alguém poder regressar. Às vezes desorientavam alguém para se perder e encontrar outro alguém. Às vezes escreviam a grafite a direção a seguir ou o caminho a tomar. E foi assim que os vendavais e as constelações tiveram que passar a trabalhar por conta própria. E foi assim que o espaço e o tempo deixaram de suspirar. E foi assim que passaram, realmente, a entender.



por Ana Sevinate



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