29/06/2017

o perdigueiro que se chamava Coragem


(palavras) (cinco sentidos: olfato)


“Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira. “

Alberto Caeiro

Era uma vez um perdigueiro. Como todos os perdigueiros, tinha um nariz. Como todos os perdigueiros, tinha um nariz que dizia “segue, vai, não olhes para trás”. Um nariz que indicava a direção. Que sentia o aroma das cores e das sombras. Que fazia com que levantasse uma das patas da frente e ficasse em forma de flecha. Pronta a disparar. De um arco com grande pontaria.

Corpo reto. Pelo da cor do mel de alfazema. Músculos atléticos. Ombros alinhados. Risca alva na testa no sentido do horizonte. Coração grande. Olhos docemente determinados. Orelhas caídas. Moldadas ao vento. Aveludadas. Nariz à frente e no comando: “é por ali”. Antes do disparo. Antes da corrida. Velozmente. Convictamente. Sem dúvidas. O cheiro da terra molhada. Um trilho. Um rasto. Uma voz. Um afeto. Era por ali. E fosse o que fosse, lá ia ele. Entregava-se. Ao seu nariz. Sem pestanejar.

Um dia, um estalido maior, fez lembrar o início de uma tempestade, não se sabe de onde. O apocalipse, parecia. Um susto. A meio do caminho, guiado pelo seu nariz. O coração saltou para fora do peito. O perdigueiro escondeu-se. E a partir daí, sempre que o seu nariz puxava e apontava, o perdigueiro travava. A fundo. Até fazer esvoaçar pó da terra. E afincava as quatro patas no chão. Como que quatro grandes raízes antigas e teimosas. O seu nariz insistia e ele recusava. Resistia. E pouco a pouco foi aprendendo a ir na direção oposta. Do seu nariz.

Dizia-lhe: “segue, vai, não olhes para trás”. E o perdigueiro dava meia volta. Dizia-lhe “é por ali”. E o perdigueiro virava costas. Gerou-se a confusão. O nariz dizia uma coisa. A memória de um susto dizia outra. Um dizia “alhos”. A outra dizia “bugalhos”. O coração do perdigueiro ficou confuso. Atrapalhado. Perdido. Perdera a confiança no nariz. A sua lealdade pertencia agora ao susto. À memória do susto. Porém, esta não indicava coisa nenhuma. Não guiava. Não puxava. Não dava sentido. Simplesmente dizia para onde não ir. Para não ir atrás do seu nariz.

Ia para trás ou para a frente? Para cima ou para baixo? Na direção do monte ou da seara? Para perto ou para longe? A solução era não ir a lado nenhum. Era mais seguro. Orelhas, agora, abandonadas. Era uma flecha sem arco. E sem alvo. Perdera o seu foco. E perdera a sua bússola. Mas o coração do perdigueiro sentia a determinação do nariz. De cada vez que se franzia. Persistência. Vontade. Chamava-o. O cheiro do apelo. A curiosidade estava mais desbotada, mas ainda vivia. O amor pela descoberta falava com uma voz quase afónica, mas ainda vivia.

E foi ao nascer do sol de um outro dia, entre deambulações, que se cruzou com um outro perdigueiro. Novo por aquelas bandas. Olhos doces. Pelo da cor do mel de alfazema aclarado pela luz do sol. E pelo tempo. Risca da testa mais alva. Um outro perdigueiro, que entendeu o que tinha acontecido. Escutou o seu silêncio. E recordou-se do seu próprio susto. A meio do caminho que o seu nariz lhe tinha indicado. Era aquilo que sabia ser uma iniciação. Pela qual passavam todos os perdigueiros. Quando seguir o nariz passa a ser decisão. Tinha chegado o seu momento de passar testemunho. De perdigueiro para perdigueiro. Disse-lhe então: “ouvi dizer que o teu nome é Coragem. “

Um sorriso angustiado respondeu “sim, irónico, não é? “. “Não, não é”. “Coragem é decidir deixar-se guiar pelo faro. Para além dos sustos. Sabendo que eles existem. Seguindo o rasto das suas pegadas. “E conduziu-o até uma grande árvore. E sentaram-se os dois. Frente a frente. Viram-se nos olhos um do outro. Doces. E o perdigueiro que tinha a risca mais alva colocou uma pata na testa do perdigueiro chamado Coragem e solenemente, aclamou: “Que o faro cheire o perigo, mas que o perigo não pare o faro. E que o perigo não baralhe o coração. “ E colocou um fio no pescoço do Coragem. E nesse fio estava uma pedrinha onde estava escrito “sigo-me”. E ambos fizeram uma vénia em sinal de reconhecimento. E deram ambos por concluído o ritual.

E o perdigueiro da risca mais alva seguiu placidamente o seu caminho. E o perdigueiro chamado Coragem ficou mais um bocadinho debaixo da grande árvore. E deitou as patas dianteiras no chão e cheirou o aroma da erva fresca. E o aroma da sabedoria atarefada das abelhas. E o seu coração regressou a casa. Já sabia onde estava. E cheirou também o aroma do fio que lhe tinha sido oferecido. E seguiu-o.



por Ana Sevinate
SHARE:

Sem comentários

Publicar um comentário

© Histórias de Raiz . All rights reserved.