10/07/2017

a sustentável leveza de se ser


(sentires)

“Leve os alperces ao lume cobertos com água
e deixe cozinhar cerca de 10 a 15 minutos.
Deixe arrefecer, junte a raspa de limão, as natas (de aveia),
e triture até obter um creme fofo.”


Claras em castelo. Suspiro. Merengue. Com aroma a baunilha. É assim que nos sentimos? Ou mais como trouxas de ovos? “Pão de rala”? Como nos sentimos? E como sentimos os outros? Leves ou pesados? O que carregamos? Fardos de palha ou espuma de leite? O que queremos arrastar conosco e o que estamos dispostos a largar? Para podermos andar ligeiros. Em frente. Ou preferimos a segurança de guardar o que pode a vir a fazer falta? Porque nunca se sabe.... Mesmo que já esteja, há muito muito tempo, fora do prazo. Ainda que faça peso. Que entupa. Calorias sem valor nutricional. Intoxicamos. Mas guardamos, não vá fazer falta... Crenças. Vivências. Aprendizagens.

Guardamos. E, ainda por cima, aquilo que carregamos não nos chega. Queremos mais. Sentimos a falta. Insatisfação de nós próprios. Sentimo-nos insuficientes. Menos. Pouco. E a partir daí qualquer demonstração de afeto, qualquer prova de amor não chega. Porque sentimo-nos menos e por isso precisamos de mais. Para sentirmos que somos dignos desse afeto. Desse amor. Mas nunca chega. A falha é sentida em nós. E o que damos não chega. Temos que dar mais. Fazer mais. Para sermos dignos desse afeto. Desse amor. Calorias que não alimentam. Porque existe falha. Ferida.

O que acontece se escolhermos andar leves? Perdões. Drenagens de líquidos que ficaram retidos. Fluem. Água. Emoções passando e correndo em direção à foz. Levando o que já não é para ficar. Dores. Memórias. Padrões. Água com limão, acelerando o metabolismo. Abrindo comportas. Desapegando. Abrindo. Mais espaço. Respiramos. Flutuamos mais. Bolas de sabão. Cocegas. Sim, os medos borbulham. Vêm à superfície. Para serem lavados. Levados. Abre-se espaço. Para sentir. Que se é suficiente.

Sara-se a ferida largando. E recebendo diferente. E dando diferente. Mais. E enquanto as bolas de sabão sobem aos céus, deixa-se entrar. O reflexo de que temos direito de existir assim. Tal e qual como somos. E vislumbram-se novas possibilidades. De ser em nós. De ser no mundo. Ligação. Massa não quebrada. Elástica. A possibilidade de que a mensagem possa ser outra. Qualquer outra que não seja aquela que diz que não chegamos. Para sermos amados. E a magia acontece. Descobrem-se mil paladares. Texturas. De nós. Dos outros. Forças. Brilhos.

Faz-se diferente. Com amor. Em amor. Em mim, na relação comigo. Em ti, na relação com o outro. Em nós, na relação com o mundo. Ultrapassando. Ultrapassando-nos. Incluindo-nos, com tudo o que é nosso. Incluindo as várias camadas do bolo. Porque há também aquilo que não podemos deixar para trás. Aquilo que não podemos guardar na caixa das bolachas ou na gaveta da cozinha. Aquilo que não podemos deixar de ser. Com as idades que tivemos, que temos, que teremos. Sempre. Como os anéis do tronco de uma árvore, sobrepondo-se em círculos. Circundando-se, contendo-se. Ano após ano. Naquilo que essencialmente fomos, que somos sempre, que podemos vir a ser (Ferrucci). Sempre. Aquilo que sempre lá esteve, em nós, e que lhe perdemos o sabor. Demasiado saboroso para ter sido válido. Brincar. Maravilharmo-nos. Deslumbrarmo-nos. Redescobrirmos. Chocolate “Regina”. Passado.

Colocando limites, mas não fechando territórios. Delimitando espaços e tempos, mas abrindo fronteiras. Porque o amor só é possível se estivermos frente a frente. E em roda. Triângulos equiláteros. Sem vitimas. Sem agressores. Sem salvadores. Sem polarizações ou demonizações. Sem mandar para fora. A par. Em igualdade. Outra qualquer forma geométrica. Hexágono. Estrela. Geometria sagrada. Feita de pessoas. Reconhecendo-nos como diferentes. Mas parte de um mesmo templo. Sem saladas. Sentindo-nos uns nos outros, mas sabendo quem somos. O que é nosso. E o que não é. Mistura-se a massa, mas conhece-se a forma. A de cada um. Triângulos de síntese (Young Brown). De unidade. Integrando sempre. Bolo cozido por igual. Na base. No recheio. Na cobertura. Presente.

E assim, só assim, se ama. Em escolha. Porque sempre tivemos tudo. Abundância. E é quando percebemos que temos tudo, que escolhemos estar com quem perceba que também tem tudo. Que temos tudo. Que a Terra tem tudo. Todos os segredos. Todas as respostas. Todos as fontes. Todas as curas. Que não precisamos de mais. Relembremo-nos. Ajudemo-nos a não esquecer. Uns aos outros. Todas as camadas. Fofas. Leveza. Fluidez. Amor que flui, que corre. Que transforma. Que resgata. Ponto de rebuçado. Porque não agarra. Não é adquirido. Não tem posse. Alimenta-se de si próprio. Nutre-se em si próprio. Vive por si próprio. Incondicionalmente. Eternamente na validade. Futuro.


Livros recomendados: “What we may be” de Piero Ferrucci; “Unfolding Self: the practice of Psychosynthesis” de Molly Young Brown; “Tudo o que comemos conta” de Geninha Horta Varatojo.

Livro como inspiração: "A insustentável leveza do ser" de Milan Kundera.


por Ana Sevinate
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2 comentários

  1. A insatisfação é própria do ser humano. É necessário alcançar um certo estágio de grandeza espiritual para sentir Felicidade e satisfação.

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    1. Sem dúvida! Essa insatisfação é que nos faz ser, quem queremos Ser.

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