22/03/2019

a pele da serpente




(palavras) (natureza sábia)


à Ana I., aos círculos e à esperança dos tempos


Quando a serpente muda de pele, os ecos ressoam mais alto. Tudo se sente, mais. Por tudo se ansia, mais. Quando a serpente muda de pele, as cores gritam mais alto. Tudo se revela. Mais. Tudo magoa. Mais.

Rasteira. Fuligem. Poeira que se transforma em furacão em cada partícula de si.

Larga serpente. Largar de deixar ir. Larga serpente. Largar de deixar ser. E quando o ser é fininho, cru e à mostra, reclama-se a ternura do esconderijo. Reclama-se o aconchego da reflexão e a carícia do recomeço.

Não é abandono serpente. É cura. É medicina. Não é desonra serpente. É lealdade. É antídoto. Não é pecado serpente. É salvação. É origem. 

É a dor daquilo que já não é para ser. É a profecia daquilo que existe em ti. É o susto e é a surpresa. É o formigueiro da dormência e e são as cócegas na barriga. Do canto. Da serpente. Da antecipação.

Desprende. Porque não é o fim serpente. É a alma que vinga por pertencer à lua. Desprende. Porque não é mito serpente. É a história que renasce por amor às nossas raízes. Porque entre as rosas e os espinhos, senhora, és santa. Porque a inocência, serpente, é a tua. Tenra, frágil, sensível. E na cura a perdes e na cura a encontras.

Larga. A pele que já foi. Vazia. Abençoa-a. Deixa vir. A pele que há de ser. Repleta. Envolve-te. Deitada por terra, fica. Deitada na terra, deixa-te ir.



por Ana Sevinate


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