08/06/2017

a formiga carpideira que encontrou o arco-íris


(palavras)

“Sentir é criar (...) Sentir é compreender (...)“

Fernando Pessoa

Era uma vez uma formiga. Vestida de preto. Vestia-se toda de preto. Vestia-se sempre de preto. Casaco. Vestido. Luvas. Chapéu com abas. Sapatos. Fitas dos sapatos apertados em laço. Malinha de mão. Véu. Sombrinha. Tudo negro. Vestia-se atrás do escuro. Ninguém a via. Nem os raios de sol, nem os pingos da chuva. Por detrás do véu. Para todo o lado que ia, era seguida por uma pequena nuvem. Negra. Fazia-lhe companhia. Conversava com ela. Deu-lhe um nome. Deu-lhe o nome de “Tormento”. Por vezes, um denso nevoeiro rodeava-as. Desapareciam de qualquer alcance. Ninguém as sentia.

Quem por ela passava ouvia a formiga soluçar. A quem a ela perguntava “como vai? “, dizia “vai-se andando” e “assim assim, antes pelo contrário. “ A quem a ela perguntava “porque soluça? “, dizia “porque sim, é o que sei fazer. “ E lá ia ela acompanhada da sua “Tormento”. Uma soluçava, a outra chovia. Conversavam sobre o peso imenso da brisa fresca, sobre os grãos de areia que chegavam vindos das tempestades no deserto. Conversavam sobre o facto de não receberem sorrisos. E a formiga retirava um lencinho preto, bordado, de dentro da sua malinha de mão e apanhava, com ele, os seus soluços. Era assim que os sentia, na palma da mão. Apertava-a para os sentir mais. Porque, de resto, não sentia mais nada.

Um certo dia o sol aqueceu mais e ficou mais alegre. A formiga sentiu o calor a picar a pela através das fazendas pretas. Vestiu um sobretudo. Preto. Sentiu mais as picadas. Pediu então à sua “Tormento” que chovesse. Foi fácil, bastou conversarem sobre o incómodo que é o aroma dos frutos silvestres que espreitam o Verão que ia chegar de viagem. E a “Tormento” choveu, e a formiga soluçou. As duas carpiram. Mas de tanto que o sol estava alegre, a chuva evaporou e os soluços ficaram mudos. Não perceberam nada. Ficaram as duas confusas. Estonteadas. Baralhadas.  

E o calor picava mais. E o sol cantava mais. Na sua confusão, na da formiga e na da sua nuvem negra, não tiveram outro remédio se não tirar o negro que vestiam. A formiga, soluçando, tirou o casaco, tirou as luvas e tirou o véu. A “Tormento” choveu o resto e o resto dela evaporou-se no ar. A formiga tinha perdido a seu “Tormento”. Ficou aflita. Ao mesmo tempo o sol tinha chegado aos seus braços fininhos e às suas maçãs do rosto. Podia senti-lo. Ficou mais aflita. E foi, então, que chorou. E chorou. Sentiu tristeza. Sentiu medo. Sentiu-se zangada. Sentiu saudades. E sentiu alivio. E o sol sorriu-lhe e deu-lhe um dos seus raios. E a formiga sentiu ternura e fez com ele uma fita para a cintura. Sorriu de volta e um passarinho verde pousou e fez ninho no seu ombro. E a formiga sentiu esperança e pediu-lhe uma pena que colocou no chapéu.

A quem e ela perguntava com um sorriso, “como está? “, respondia “de todas as cores”. E a quem a ela perguntava “porque já não soluça, respondia “porque trago comigo o arco-íris”. Por vezes a formiga sentia mais o vermelho, outra vezes mais o lilás, ou o azul ou o cor-de-laranja. Às vezes eram tons mais pasteis, outras vezes eram tons mais florescentes. E no topo da sua cabeça formou-se uma nuvenzinha. Conversavam e cozinhavam o que as fazia corar. Conversavam e pintavam o que as fazia cerrar os pulsos. Conversavam e costuravam o que as fazia perder a cabeça. Conversavam e escreviam o que as fazia querer gritar. Conversavam e esculpiam o que lhes fazia falta. Conversavam e fotografavam o que as fazia ficar com a pulga atrás da orelha. Conversavam e semeavam o que as fazia sonhar. Às vezes caiam gotas de água, às vezes choviam raios e coriscos. Conversavam e mudavam as duas de cor.



por Ana Sevinate




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