(sentires)
“Aprendemos a escutar que não é o mesmo que ouvir,
a abraçar que é mais que tocar, a recordar aromas que é mais
do que cheirar,
a poetizar com os pés, que não é o mesmo que falar.”
(Peri & Lavalle Cobo)
“Dançamos?” É a pergunta que fazemos sempre que nos
aproximamos de alguém. Seja em passo firme ou de mansinho. No tango. Na relação.
Numa caminhada. E dançamos. Dançamos sempre, seja em abraço fechado seja em
abraço aberto. Seja intensamente ou com doçura. Seja em desencontro ou
reencontro. Sempre com falha. A falha que é própria à comunicação. Abraçando
vulnerabilidades. Abraçando medos e hesitações. E abraçando sonhos também. Sempre
e constantemente numa aproximação nova. Sem querer encaixar a dança anterior no
agora. Sim, partindo de onde estou, de onde estás e de onde estamos, neste
momento. Aceitando a nossa essência naturalmente impermanente (Pinkola Estes).
Sentindo sempre. Reconhecendo esse sentir. E comunicando-o. Através do corpo.
Partindo, com curiosidade, à descoberta e ao improviso. Pois
se dançamos ao som da música anterior, torna-se provável o desacerto, o
encontrão, a pisadela, o puxão. É preciso ouvir, atentamente, aquilo que o eu,
o tu e o nós nos dizem. Antes de cada passo. Só assim se dá espaço ao abraço.
Um abraço que seja de contenção e não de esmagamento (Bucay). Um abraço que
acolhe o que cada um dá e o que cada um recebe. Um abraço que está disposto a
largar. Pois só nesse espaço, nesse abraço, só então aí, só mesmo aí, pode ser
renovado o vínculo. Uma renovação de votos permanente, ao iniciar de cada
dança, de cada música, de cada instante. Um abraço que abre também espaço para
o ser de cada um. Para que cada possa adornar* a dança e o abraço com aquilo
que é mais seu. Pois só assim podemos existir em separado. E em individuação. É
essa a verdadeira relação. E é essa a verdadeira dança. De igual para igual e
em responsabilidade partilhada.
Sem um ter que dançar, e sentir, pelos dois. Porque só
estando dispostos a largar, se abraça um abraço que permite que o tu venhas até
mim sem ser fugindo. Só estando disposto a largar, se abraça um abraço que
permite que o eu vá até ti em liberdade. E é só mantendo cada um o seu eixo é que
nos podemos realmente abraçar. Um no outro. Uma raiz forte da qual parte uma
ligeira inclinação. Uma oposição que não é uma resistência e sim uma
aproximação firme. Um encostar que não é um abandono, mas sim um dizer “vem
comigo que eu vou contigo, onde estivermos”. Um movimento enroscado que criamos
em conjunto e que é o fruto de nós e que nos ultrapassa. Dando de braços
abertos e recebendo com o corpo todo (Bucay).
Sim, porque no tango, tal como na vida, o eu e o tu não
somos dois. Somos três. O três é a dança. O três é a relação, elemento terceiro
que resulta de nós e nos supera num movimento próprio, rodopiante. Que nos
leva, que nos traz, que nos puxa, que nos agarra. Com um compasso único e um
ritmo próprio. E o equilíbrio reside precisamente e profundamente aí. Não está
em cada um de nós. Está sim no centro dos dois (Bucay). E não será também a
partir do cento dos dois que me conheço e descubro a mim mesmo? Que descubro
quem sou e quem posso vir a ser? Em cada instante. E não será também a partir
do centro e do movimento dos dois que nos descobrimos na tribo e no mundo? Realimentando
o diálogo entre cada um de nós e nosso meio. Recuperando os vínculos sãos, tão
necessários à nossa sobrevivência (Peri & Lavalle Cobo).
E que quando um larga, o outro largue também. Acompanhando.
E que quando um se aproxima, o outro se aproxime também. Libertando. Girando em
torno um do outro numa espiral de crescimento, de conhecimento e de sentido.
Ganhando sempre cada passo nosso. Afirmando o próprio eixo. Porque aceitar um
convite pode e deve ser ocupar conscientemente o espaço que é o nosso. Em
escolha e em vontade. Porque entrega não é o mesmo que encarceramento (Pinkola
Estés). Porque aquele que aceita o convite não se deixa levar. Leva-se a sim
mesmo. Leva-se a si mesmo no abraço dos dois. E a forma como se responde ao
convite é o convite seguinte ao passo do outro. Sucessivamente.
Improvisadamente.
Porque ser-se espontâneo não é o mesmo que não se ser consciente.
Muito pelo contrário. Antes de cada passo, um momento de reconhecimento. Onde
estou, onde estás. Onde estamos. Ouvindo-me, ouvindo-te, ouvindo-nos. Só assim
somos livres para regressar. E há momentos, há instantes de volcada*, de fora
de eixo, em que o outro nos agarra ou em que agarramos o outro. Porque às vezes
é preciso que seja assim. Em movimento também consciente e consentido. Até
regressarmos ao nosso próprio eixo. Na confiança e na entrega de que há
momentos em que nos podemos suster no outro. Na confiança e na entrega de que,
se cairmos, nos levantamos. Permitindo, mais uma vez, a descolagem daquilo que
achamos que somos. Aceitando que “não sei quem vou ser no minuto seguinte”
(Lewis Carroll) e que assim me torno mais quem sou. Sentindo sempre. Sempre de
regresso à minha raiz.
Paremos agora. Um segundo suspenso no ar antes da próxima
dança. Antes da próxima tanda*. Respiramos fundo os dois, respiramos o ar que
nos envolve. O ar da terra. Caminhemos agora, os dois. Porque tal como no tango
e tal como na vida, o contato com a terra reflete o sitio onde estamos. O
aveludado das pétalas das flores, as sombras, a forma das pedras do caminho, as
cores do esvoaçar das borboletas, os aromas que caem das árvores, a velocidade
da passada, o ir à frente ou atrás, ou lado a lado, os instantes da paragem, os
lugares de contemplação. A dança e a natureza trazem isso na sua essência.
Conectam-nos conosco, através do corpo. Conectam-nos conosco na relação com o
outro, através do corpo. Numa comunicação sensível através da consciencialização
dos atos desse mesmo corpo. E dessa tomada de consciência nascem mil danças
possíveis. E nasce, sobretudo, a possibilidade de escolher como as queremos
dançar.
Dançamos?
Livros recomendados: “Amar de olhos abertos” de Jorge Bucay; “Psicotango: danza como terapia” de Monica Peri e Ignacio Lavalle Cobo
*
Adorno: movimentos de decoração e embelezamento, utilizados
pelo bailarino(a) para demonstrar a sua capacidade e para interpretar a música.
Tanda: conjunto de três a quatro músicas de estilo
semelhante; cada tanda é separada por uma cortina musical durante a qual são
escolhidos os parceiros para a tanda seguinte.
Volcada: retirada do eixo para a frente, produzindo um
movimento de caída da perna; requere o suporte de um abraço fechado.
por Ana Sevinate
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