05/06/2017

pela toca do coelho (capítulo II)


(sentires)


“Quando assentou o teu sorriso
não te restava nada
Apenas tudo o que é preciso:
a paz da caminhada.”
Márcia

À Alice que habita no outro, por detrás do nosso espelho.

Os coelhos sabem o caminho. Conhecem-no e intuem-no. Sabem onde estão as ervas frescas, as sombras das árvores e os perigos ao virar da esquina. Sentem-no no pelo e em cada célula de si. Porque são também o caminho. São as prímulas, são os castanheiros, são as pedras e são os perigos. O caminho que nos leva ao fim de um ciclo. O caminho que nos leva ao inicio de um outro. Novo. Renascemos. Na toca do coelho. Em ligação com o outro e com o mundo. Um outro e um mundo que compreendemos agora que não nos pertencem, mas que abraçam quem somos. Que nos abraçam por quem somos. Que são a nossa casa, mas que são livres. Em consciência. Em amor. Renasçamos. Mudemos de pele. Sigamos, assim, caminho.

O sentido, de nós, dos outros, das relações e do mundo mudou. É agora desconhecido. Será mesmo? Ou não será antes o resgate de uma forma de sentir, de existir, de viver, de amar, que nos é tão familiar? Em ligação, em conexão. Pelos sentidos. Ver, cheirar, tocar, saborear, escutar. Nasce connosco. Trepar às árvores, agarrar a terra, mexer nas formigas, fazer anéis de água com seixos do rio, colocar flores nas tranças do cabelo. Correr, sujar e sujarmo-nos, andar descalço, à chuva. Sentir a Terra na pele, na carne e nos ossos. Livres. Voar na maré. Nadar no horizonte. Saltar à corda com o Universo. Espreitar as estrelas. Nasce connosco e antecede-nos, é herança ancestral e primordial, renovada em cada geração (Roszak).

Torna-se, então, primordial também a nossa imersão na Terra. Desde o momento em que nascemos, desde o momento em que vemos, cheiramos, tocamos, saboreamos e escutamos o mundo. Para que não cresçamos no “estranhamento” que tanto nos faz adoecer. Para que não se quebre o encantamento da ligação anímica (Frater, Roszak). Para que a Alice possa trazer consigo o sonho. Quando regressa vinda da toca do coelho. Para lá do tique-taque estridente da tecnologia e da limitação concreta do cimento.

Alice tem agora a liberdade de sentir. E com ela a responsabilidade. Tal como a mãe coelha que deixa os filhos descobrirem que conseguem saltar pelas suas próprias patas. Correndo, pulando, explorando, desbravando. Com o olhar atento de quem protege, mas que não prende, que sabe que só escolhendo é que se é inteiro. Que só descobrindo aquilo que nos faz doer é que podemos mudar de direção. Porque “perder é o preço do amor” (Márcia e JP Simões). Que deixar o outro seguir o seu caminho não é deixar de dar resposta. Porque dar colo não é tornar o outro objeto. É, pelo contrário, torná-lo sujeito, individuo. E para isso é preciso dar-lhe a liberdade de existir. Ou não. De nascer, de morrer e de renascer em cada instante. Ou não. A liberdade de escolher voltar. De ir e de voltar. Inteiro. Porque costurar sonhos não é o mesmo que fabricar expectativas. Os sonhos nascem quando somos livres. As expectativas nascem quando ficamos à espera. O risco dos sonhos é a dor da perda. O risco das expectativas é a desilusão por termos abdicado de nós. Os sonhos são costurados em conjunto, as expectativas são fabricadas em solidão.

Ainda na toca. E atrás do espelho. Só abraçando o medo de perder se pode ver, cheirar, tocar, saborear, escutar. Mas estaremos dispostos a isso? Estaremos dispostos a perder a pseudo-segurança de não sermos vistos, escutados, tocados por inteiro? Sentidos por inteiro? Porque nos prendemos ao que achamos que não temos? Ao que achamos que o outro tem em seu poder? Porque ser igual ao outro despe-nos e põe-nos no mundo tal como viemos. Libertos de papeis, máscaras, vestidos, camisas, molduras e retratos antigos. Libertos mas responsáveis. E só sendo responsáveis podemos ser livres e só sendo autónomos nos podemos perder. Em nós, no outro. Não esqueçamos, também por isso, que as nossas raízes plantadas na terra e na Terra irão lá estar, à nossa espera. Lembremo-nos que podemos sempre voltar para elas. Acolhem-nos, abraçam-nos e lambem-nos as feridas.

Vermo-nos no espelho no outro torna-nos então responsáveis por ver, cheirar, tocar, saborear e escutar quem somos. E, acima de tudo, torna-nos responsáveis pela escolha de quem queremos ser. E a escolha de se ser traz o medo de perder, mas sem ele não temos nada. Nem morte, nem vida. Só um sonho vago daquilo que pode ser e daquilo que podia ter sido. Agarrados a uma velha história que passa num disco riscado. É preciso, então, darmos o pulo no infinito, o salto de fé e atravessar o espelho. Ganharmos asas. Descobrirmos quem reflete a imagem. Descobrirmos a nossa própria autenticidade. Mas estaremos realmente dispostos a viver a verdade a que essa autenticidade obriga?

À imagem da relação do eu com o outro e do eu com o mundo, revela-se a imaginação. Também ela sujeita a clausuras. A não ter espaço para ser em liberdade. A ficar presa numa redoma de vidro, feita de análise e de interpretação (Frater). Também ela não pode correr selvagem. As imagens tornaram-se também elas objetos, sem identidade, sem personalidade própria, sem individualidade. Os símbolos tornaram-se abstrações vitimas de escrutínios. Contos de fadas em duas dimensões. E sem retirar a importância da análise e da interpretação, resgatemos a ancestralidade e a natureza do símbolo, da metáfora, da imagem, da história, do sonho.

Que as borboletas na nossa barriga sejam sempre borboletas. Que a pomba da paz voe na realidade das suas asas brancas. Que a Alice mude mesmo de tamanho. Que para nós seja sempre e “cada vez mais curioso” (Lewis Carroll). Porque deixar a imaginação correr selvagem não é o mesmo que não a conter. Porque ser mãe da imaginação é deixa-la ser livre e, ao mesmo tempo, dar-lhe colo. Ajudando-a a crescer em segurança. A segurança de que a capacidade criadora e criativa necessita para se perder sem enlouquecer. Para voltarmos. Para sairmos da toca e percebemos que já não somos os mesmos. Ou, talvez, que somos agora quem poderíamos ter sido sempre. Seres (mais) vivos.


Livros recomendados: “Alice do outro lado do espelho” de Lewis Carroll; “The Voice of the Earth: An Exploration of Ecopsychology” de Theodore Roszak.

Artigos recomendados: “Ecopsychology: finding a place”, “Ecopsychology: Imagination and Soul” e “ Ecopsychology & the Eco Child” por Allan Frater (todos os artigos encontram-se no blog do Psychosynthesis and Education Trust).

Músicas recomendadas: “Bom destino” por Márcia; “A pele que há em mim” por Márcia e JP Simões.  



por Ana Sevinate
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