05/10/2017

folhas de Outono


fotografia: Gerês, Outono
carvalho: sabedoria, força, durabilidade, solidez


dedicado a A. e a M.

(sentires) (imagens)

Existe algo de profundamente fascinante nas pontes. Ligam. O cá e o lá. O ali e o acoli. O antes e o depois. O ontem e o amanhã. São o aqui, o agora e o hoje. Ligam o que a água separa. Sobrevoam a água que a terra abraça. Símbolos arquitetónicos de união. Histórias feitas de pedras e de ramos. Atravessadas por tempos e eras, pressas e ficares, canas de pesca e migalhinhas para os peixes, bicicletas e namoros.

Desde não há muito tempo que fui sentindo que alguns de nós somos pontes. Ligamos lugares, pessoas, narrativas, sentires, filosofias, ideias. Não somos de lá, nem de cá. Somos daqui. Somos do sítio que nos liga. Somos feitos de linhas e de laços. Pertencemos ao caminho. Pertencemos ao entretanto e ao segmento de reta. Ao comboio e ao avião. À maré. Somos a viagem e o viajante. Somos a raiz e o vasinho que a transporta.

Lugar que às vezes pode ser sentido como solitário e a sem pátria. Ou, pelo contrário, lugar de antecipação e de álbum de recordações. De saudades e de regresso. Lugar onde se faz parte de todos e se pertence a tudo. Lugar que tem a qualidade de juntar realidades aparentemente distantes, de integrar partes de nós aparentemente de costas voltadas, de transmutar ideais aparentemente contraditórios. Norte e Sul. Corpo e alma. Passado e Futuro. Poiso e voo. Solstício e Equinócio. Bosque e planície.

Somos o centro e somos o coração. Somos presente e somos presença. Somos o abrir das asas. Vamos tocando, mais ou menos de mansinho, na vida uns dos outros. Ficando e indo. Partindo e voltando. Aguardando. Na estação, na paragem, no aeroporto, à porta. Vamos semeando e colhendo sementes de seara, de vinha e de castanheiros. O que tocamos viaja connosco e o que nos toca fica lá à nossa espera.  

Pontes imaginárias que não têm que ter rios. Nem nascente nem foz. Nem Douro nem Tejo. Nem Guadiana nem Mondego. Viajo por estes dias de comboio, Intercidades, entre cidades. Lisboa, Porto, Braga. Entre o calor alaranjado, o nevoeiro e o chuvisco miudinho. Um dia foi de avião. Entre Portugal e Inglaterra. Também entre o calor alaranjado, o nevoeiro e da chuva miudinha. Trago mais à consciência essa característica que não se escolhe. Temo-la porque sim. Pode-se, porém, acolhe-la e cabe-nos a nós viver o melhor dela. Restabelecendo elos e fortalecendo abraços.

Movimento tão necessário como respirar que é dança livre e dança de comunhão. Num momento, o por do sol cor de ácer. Num momento a vista da Ribeira com quem fez sempre parte da nossa vida e um jantar à mesa com quem sempre fará. Num momento a pronuncia do Norte que se senta ao nosso lado. Num momento o sotaque alentejano que espreita pelo telefone. Num momento um abraço com aroma a casa de quem é companheiro de viagens. Folhas de carvalho, sólido e mágico.

É precisamente do movimento e da viagem que se agita o processo criativo. A criação nasce da relação e a relação nasce da travessia, do passo e do gesto. Da criação nasce a autonomia. Sem pontes sinto que não saio do mesmo lugar. Sem gesto e sem passo falta força criadora, ação, foco, energia, vontade. A imaginação fecha-se em concha e brinca ao quarto escuro. Com pontes ligo-me e a imaginação sai de mãos dadas. E é das folhas que caem e se perdem que as pontes se erguem.  


por  Ana Sevinate

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