19/10/2020

o desamparo e o rio

 

(sementes)

"Vou na ribeira do rio

Que está aqui ou ali,

E do seu curso me fio,

Porque, se o vi ou não vi.

Ele passa e eu confio."


Fernando Pessoa


É na experiência do desamparo que a proximidade da relação se torna imperdoável. E é também na experiência do desamparo que a separação se torna insuportável. A proximidade relembra-o e a separação revisita-o. A ideia de dependência é banida e a independência é fugitiva. 

E se o rio for a ponte? A travessia? Entre dois mundos. Pois se o amparo está na terra, o encontro faz-se na água. Na relação. Na relação que acolhe, suporta e espelha a possibilidade do paradoxo e da contradição aparente. É na água que fluem as emoções e que o olhar se sustenta e é na água que, com o amparo das margens, encontramos amorosamente a possibilidade do colo. 

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21/05/2020

as senhoras com capuzes de cor púrpura

(quando te vejo a Ti Natureza, vejo a nossa)
(sobre a ancestralidade)

"Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura."

(in "Manhã Futura" de Sophia de Mello Breyner Andreson)



As “campainhas” guardam segredos em cachos de cor púrpura. Sussurram umas às outras linhas de memórias e matizes de cura que a geração anterior foi pintando a óleo. 

Mas se nos formos aproximando devagarinho e com gentileza, podemos ouvir os segredos que passam delicadamente de mão em mão. Com luvas de raposa. 

Estendem-se em altura, em direção à eternidade do céu e à profundidade do solo, como uma árvore genealógica viva, vibrante e solene. Capuzes de feiticeiras. Toucas de sacerdotisas. 
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13/09/2019

a genética da paisagem



(psicologia pela nossa paisagem)

"Atravessa esta paisagem o meu sonho infinito"
Fernando Pessoa


As nossas raízes estão plasmadas na paisagem que habita o nosso corpo e a nossa alma. Bosques, fragas, planície ou areal. Árvores farfalhudas, despidas, revestidas a cortiça ou, simplesmente, ausentes. Asas de corvo, milhafre, cegonha ou gaivota. Cerejas, amêndoas, bolotas ou camarinhas. Chamam por nós. Ressoam em nós. Ecoam o nosso nome.

Crescem connosco. Da semente à baga, da casca à clorofila, da eira ao quintal. Habitam no centro. Das células, do coração e da terra. É preciso conhecê-las. São registo genético. É preciso visitá-las. São ponto de partida. Para os destinos da vida. Para os propósitos do espírito.

A paisagem que habita o nosso corpo e a nossa alma é galho onde pousamos. Do amanhecer à desfolhada. Onde respiramos o dourado das espigas e celebramos o doce das maçãs. Com salpicos de sorriso. Ou de lágrima.  

A paisagem que habita o nosso corpo e a nossa alma é água termal que sara. Do entardecer à alvorada. Onde lavamos os espinhos da saudade e bebemos o perfume das memórias. Velhinhas. À braseira. Ou à fogueira. 

A paisagem que habita o nosso corpo e a nossa alma é o bailado de sempre. Cisne branco e cisne negro numa pena só. Ficaram no sangue, nos tecidos e nos alvéolos. Foi aquele o alimento que nutriu. A árvore. Foi aquela a luz que tocou a pele. Da árvore. Foi aquele o ar que expandiu. A árvore.

Genealógica.

Árvore, regressamos aqui. Árvore, regressamos hoje. Para relembrar quem somos. Para podermos partir. A partir de ti. Para ti.

Conta-nos. Diz-nos como é.

Como sempre foi. 


As terras e os lugares de onde viemos e de onde vieram as gerações anteriores a nós estão gravados na nossa consciência. E por vezes é preciso regressar. Para respirarmos as nossas raízes.


Ana Sevinate


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01/03/2019

o mundo numa vagem


(sentires) (natureza exemplar)



“Então ficaram com a certeza de terem encontrado uma princesa verdadeira,
pois ela tinha sentido a ervilha através de vinte edredões e vinte colchões.
Só uma princesa verdadeira podia ser tão sensível.”

Hans Christian Andersen
In A Princesa e a Ervilha



Se o mundo fosse uma vagem seríamos bolinhas aninhadas numa mesma casca. Semelhantes, mas nunca iguais. Germinadas pelo impulso uns dos outros. Verdes de esperança e repletos daquilo que nos nutre. Parceiros.

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08/02/2019

a cor da água


(sentires)

"Aqui sou eu em tudo quanto amei."
Sophia de Mello Breyner Andreson


Quando a cor suspira, a água cora. Mergulho. Imersão. Alga, que é seca agora, lembra-se outra vez de quem foi. Funde-se, embebe-se. Infusão, bebida mágica. Antes envelhecida, regressa. A água devolve-lhe a vida. Em troca das suas memórias, que agora é das duas. Da alga, da água. O espírito é agora das duas.
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18/01/2019

ser malmequer


(sentires)



“Malmequer, bem-me-quer,
Muito longe está quem me quer bem. “
Amália Rodrigues



Ser malmequer* é ser pequeno e é ser grande. Pequeno. Em tamanho. Grande. Em dignidade. Um pequeno sol despenteado. Sol do meio dia. Erguido. Assimétrico e nervurado. Pétalas nervosas. Filhas do vento.

Ser malmequer é nascer no cume da montanha. Terras altas. É espreitar o mundo de lá de cima. Longe das coisas más. Mas à mercê da tempestade. E longe do abraço. É crescer em solo sofrido, feito de natureza que morre.
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26/12/2018

o abraço do musgo à árvore


(sentires)


aos rituais do Inverno e ao sol que renasce



Uma vozinha doce, soa longínqua. Mansinha. “Posso?” – perguntou o musgo. 
“Podes” – disse a árvore. E o musgo subiu.
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14/12/2018

a menina da saia cor de fósforo


(sentires)



Eu vejo o céu quando eu te vejo, Dulcineia!
E o teu nome é como uma oração.
Um anjo sussurra... Dulcineia. “

in D. Quixote
Miguel de Cervantes


Acende-se o fósforo*. Chama sem fronteiras. Sem forma. De todas as formas. A alma está cá fora. O coração está cá fora. A mente está cá fora. A pele não limita. Recebe e foi feita para receber. Tudo. Impressões. Perfumes. Informações. Cores. Sentires. Palavras. Imagens.

O que está lá dentro salta à vista. Transparência. Difunde-se. Espalha-se. Dá-se. Osmose. Porque a emoção do outro trespassa-a. Todos os sentires são sentidos. Todos os sustos são de fazer saltar o coração. Ao peito. Coração minhoto, está também no fio. Ao colo. Coração minhoto, está também na saia. No lenço dos namorados, está sem dúvida na pele. Sente com as pontas dos dedos e voa com a ponta das pestanas. São asas de borboleta.
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12/12/2018

advento de afetos





(imagens)

São tempos de advento e no Histórias de Raiz o sonho é trazido no regaço de uma menina. Uma menina chamada Dulcineia. De olhos bem fechados. E nas suas pestanas vislumbram-se sorrisos. É menina. É fonte de vida. É mulher. É senhora de si. É, eternamente, “mensageira de afetos”.

A Dulcineia nasceu das mãos do Atelier VianaCabral. Feita com todo o coração, ficou no nosso também. E conquistou-o. Feita com alma de estrela, ficou na nossa também.

Com uma honra imensa, toda nossa, vem hoje a linda Dulcineia anunciar o próximo artigo dos Histórias de Raiz. Espreita entre arvoredos, conta segredos às borboletas e entrança lenços coloridos. 

Conta-nos histórias de outros e destes tempos. Histórias que também são as nossas. E dança. Dança sempre. Voltando sempre. De mão em mão.  E em roda.

Vem nas asas de uma pomba. Distribuindo beijos de filigrana. Vestida de raízes. Das nossas.


por Ana Sevinate




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07/12/2018

cheira a terra molhada


(sentires)

a todos nós, que somos também Outono


A neblina espreita por detrás de uma cortina rendada. Cheirou-lhe a bolo de laranja. Com calda. Feliz, desenha uma estrela na janela embaciada. Quanto mais a chuva se faz ouvir, mais as folhas se escondem. Debaixo das mantas. Mantas feitas de terra. Onde dormem um sono profundo. Feito da esperança da qual nascem as sementes.

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26/07/2017

revisitar "a nossa casa"


(sentires)

“Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia onde 
cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas.”

Sophia de Mello Breyner Andreson
In “A menina do mar”
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17/07/2017

todos os nossos nomes


(sentires)


“Fecha os olhos bem fechados,
e diz-me a que é que cheira.
Cheira a rosa, cheira a nardo,
ou a flor de laranjeira?”

Jorge Sousa Braga

Qual é o meu nome? Qual é o teu nome? Qual é o nome da rosa? Que significado tem? Que mensagem guarda? O nosso nome. O meu, o teu e o da rosa. E esse foi o nome que nos deram. A mim. A ti. À rosa. Etiqueta. Rótulo. Cartão de visita. Cartão do cidadão. Bilhete de entrada. Palavra passe para o encontro. Que alguém escolheu para nós. E nessa escolha está parte do que a nossa história tem para contar. E se perguntássemos, ao nosso nome, “de onde vens?”, “por que caminhos vieste?”. E se nos perguntássemos, a nós, “qual é o nome que é o meu?”. E o teu? E o da rosa?
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10/07/2017

a sustentável leveza de se ser


(sentires)

“Leve os alperces ao lume cobertos com água
e deixe cozinhar cerca de 10 a 15 minutos.
Deixe arrefecer, junte a raspa de limão, as natas (de aveia),
e triture até obter um creme fofo.”


Claras em castelo. Suspiro. Merengue. Com aroma a baunilha. É assim que nos sentimos? Ou mais como trouxas de ovos? “Pão de rala”? Como nos sentimos? E como sentimos os outros? Leves ou pesados? O que carregamos? Fardos de palha ou espuma de leite? O que queremos arrastar conosco e o que estamos dispostos a largar? Para podermos andar ligeiros. Em frente. Ou preferimos a segurança de guardar o que pode a vir a fazer falta? Porque nunca se sabe.... Mesmo que já esteja, há muito muito tempo, fora do prazo. Ainda que faça peso. Que entupa. Calorias sem valor nutricional. Intoxicamos. Mas guardamos, não vá fazer falta... Crenças. Vivências. Aprendizagens.
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26/06/2017

o silêncio das palavras


(sentires)

Escuta. Pacientemente. Espera. São teclas de um piano? Cordas de uma lira? O sopro do vento nas asas de um falcão? São pérolas de um colar quando se cumprimentam umas às outras, educadamente? São palavras? Não. São os intervalos. Entre teclas, entre cordas, entre bater de asas, entre sons. Entre palavras. A distância entre elas. Os espaços e os tempos entre elas. Vazios? Não. Repletos de interlúdios que acompanham o fechar do pano. Antes do próximo ato. Repletos também da interpretação da sua própria musicalidade. Sim, porque existe música no silêncio. E existe música na ausência. 
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19/06/2017

as linhas com que nos costuramos



(sentires) 


“Após ter dado continuação à desarrumação, sem conseguir pronunciar, 
ainda que mentalmente, uma única palavra, concluíu: “Ela existe.”

A Rainha das Rosas
Tailoring Stories by Storytailors


O que nos liga? Fitas, laços, botões, colchetes? Palavras, sensações, emoções, pensamentos? Ou isso tudo e para além disso tudo? Costuras invisíveis. Interiores. Inconscientes. Para além da nossa compreensão, mas não para além do sentido. E há momentos, lá atrás, em que nos desligámos. De nós. Corta-se a linha, desata-se o laço, cai o botão. Perde-se o molde. Porque disse-nos o mundo que tinha que ser. Para encaixar no modelo, para o fato servir. Para nos ajustarmos ao corte pré-definido. Para ficar impecável nos ombros. Para a cintura parecer na perfeição. Manequins de roupa que não nos serve.
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12/06/2017

no centro dos dois


(sentires)

“Aprendemos a escutar que não é o mesmo que ouvir,
a abraçar que é mais que tocar, a recordar aromas que é mais do que cheirar,
a poetizar com os pés, que não é o mesmo que falar.”
(Peri & Lavalle Cobo)


“Dançamos?” É a pergunta que fazemos sempre que nos aproximamos de alguém. Seja em passo firme ou de mansinho. No tango. Na relação. Numa caminhada. E dançamos. Dançamos sempre, seja em abraço fechado seja em abraço aberto. Seja intensamente ou com doçura. Seja em desencontro ou reencontro. Sempre com falha. A falha que é própria à comunicação. Abraçando vulnerabilidades. Abraçando medos e hesitações. E abraçando sonhos também. Sempre e constantemente numa aproximação nova. Sem querer encaixar a dança anterior no agora. Sim, partindo de onde estou, de onde estás e de onde estamos, neste momento. Aceitando a nossa essência naturalmente impermanente (Pinkola Estes). Sentindo sempre. Reconhecendo esse sentir. E comunicando-o. Através do corpo.
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05/06/2017

pela toca do coelho (capítulo II)


(sentires)


“Quando assentou o teu sorriso
não te restava nada
Apenas tudo o que é preciso:
a paz da caminhada.”
Márcia

À Alice que habita no outro, por detrás do nosso espelho.

Os coelhos sabem o caminho. Conhecem-no e intuem-no. Sabem onde estão as ervas frescas, as sombras das árvores e os perigos ao virar da esquina. Sentem-no no pelo e em cada célula de si. Porque são também o caminho. São as prímulas, são os castanheiros, são as pedras e são os perigos. O caminho que nos leva ao fim de um ciclo. O caminho que nos leva ao inicio de um outro. Novo. Renascemos. Na toca do coelho. Em ligação com o outro e com o mundo. Um outro e um mundo que compreendemos agora que não nos pertencem, mas que abraçam quem somos. Que nos abraçam por quem somos. Que são a nossa casa, mas que são livres. Em consciência. Em amor. Renasçamos. Mudemos de pele. Sigamos, assim, caminho.
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29/05/2017

pela toca do coelho (capítulo I)


(sentires)

“Já não havia prímulas. Perto da orla do bosque, onde o terreno se tornava aberto e descia até uma velha cerca e uma vala de silvas maia à frente, apenas uns quantos tufos amarelados e pálidos ainda assomavam aqui e ali por entre as mercuriais e as raízes dos carvalhos. Do outro lado da cerca, a parte superior do campo estava cheia de tocas de coelho. “
(Richard Adams)

À Alice que habita em cada um de nós.


Existem pequenos instantes que marcam passagens. Iniciações. Primeiro existe aquele segundo, ou dois, em que nos sentimos à beira. À beira do depois. Aquele espacinho exatamente entre o antes e o depois. Sabemos, no corpo, que a partir daí não se regressará ao antes. Perde-se aquilo que é e aquilo que é passa a ser aquilo que foi. O coração bate em corrida, aos pulos. Segue-nos o medo e empurra-nos a curiosidade. Acompanham-nos os dois, desde sempre. De mão dada. Algo, em nós, tenta impedir que nos movamos, nem sequer um dedo, um fio de cabelo. Outra coisa qualquer, em nós, faz-nos avançar sem pestanejar. Depois há um lapso de tempo, do qual não nos damos conta. Sem nos apercebemos, atiramo-nos no ar. Um pulo. Para um espaço amplo, entre reinos, entre universos. Como um céu profundamente estrelado. Entrámos pela toca do coelho. Precipitamo-nos em queda.
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22/05/2017

era uma vez


(sentires)

“Mãe, para este Natal quero uma história com um caracol.”


Ouvimos histórias, contamos histórias e tecemos histórias em conjunto. Desde o princípio dos tempos e desde o principio do tempo de cada um de nós. Escrevemo-las em cada passo que damos. Pela vida fora. É aquilo que nos ajuda a dar sentido e é aquilo que nos dá sentido de continuidade. Para não nos desmembrarmos. Para sermos um todo. Contraditório e mutável, mas um todo. Da mesma forma, a mitologia ajuda-nos a dar sentido ao universo e à existência. Porque a mitologia possui a qualidade e a magia de carregar consigo, em simultâneo, a genialidade e a ferida. Possui a qualidade e a magia de conter, em si mesma, os ingredientes que tornam possível cicatrizar. Narrando o drama das nossas vidas, mas também as emanações profundas da terra (Shaw). 
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15/05/2017

ser mais


(sentires)

O medo de existir. É como andar sempre a pisar ovos. Quando tudo o que fazemos, ou não fazemos, acorda o medo de existir. De avançar, de dizer que não, de dizer que sim. Dentro de nós surgem “guardas” que não nos deixam mexer um dedo. Dizem-nos que é errado. Protegem-nos do medo de sentir. Protegem-nos do medo de magoar. Fazem-no dizendo que somos errados, ou que o fazemos é errado. Ou que não somos capazes.
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